Home Office e Fronteiras Invisíveis: Onde Termina o Trabalho e Começa a Vida?
- Sergio Duarte

- 20 de jul. de 2025
- 3 min de leitura
Um olhar humanista sobre a integração entre existência, trabalho e autenticidade no cotidiano remoto

O avanço do home office transformou de forma radical a maneira como nos relacionamos com o trabalho — e também com nós mesmos. Aquilo que antes era separado por paredes, deslocamentos e rotinas distintas, passou a coexistir no mesmo espaço físico e emocional. E, com isso, uma nova questão emergiu com força: onde termina o trabalho e começa a vida?
Na perspectiva da Psicologia Humanista, essa pergunta toca em algo profundo. Porque não se trata apenas de gestão de tempo ou organização de agenda, mas de fronteiras internas e existenciais. Trabalhar de casa escancara o desafio de manter a integridade psíquica em um ambiente onde as esferas da vida — pessoal, profissional, familiar — se sobrepõem o tempo todo.
O lar, que antes era espaço de intimidade, descanso e refúgio, passou a ser também lugar de entrega, cobrança, reuniões e prazos. A mesa de jantar virou escritório. O quarto virou sala de conferência. O celular, antes usado para contato pessoal, tornou-se extensão do expediente. E, aos poucos, muitos passaram a viver em um estado de conexão permanente, sem pausas reais, sem desligamento emocional, sem o “voltar para casa” que antes marcava o fim do dia.
Para a Psicologia Humanista, isso não é apenas um problema prático — é uma ameaça à autenticidade e ao equilíbrio interno. Quando as fronteiras entre o “ser” e o “produzir” se dissolvem, corre-se o risco de perder o contato com o próprio ritmo, com as necessidades mais básicas, com o corpo, com os afetos, com o silêncio. A vida passa a ser medida em entregas, e o descanso, visto como culpa ou luxo.
Essa dissolução de limites afeta diretamente a saúde emocional. Ela promove um estado de vigilância constante, em que a pessoa nunca sente que realmente “saiu do trabalho”. O tempo passa a ser funcionalizado — tudo deve ter um propósito, uma meta, um resultado. E, nesse cenário, a espontaneidade, a presença e o simples estar vão sendo sufocados.
Do ponto de vista humanista, é fundamental resgatar o sentido e o direito de existir para além da função. O trabalho, ainda que importante, é apenas uma das expressões da existência. Quando ele ocupa todos os espaços — inclusive os simbólicos — torna-se um fator de empobrecimento subjetivo. O ser humano deixa de ser alguém para se tornar apenas alguém que faz.
Mais do que criar técnicas de organização ou definir horários rígidos, o que se propõe aqui é um movimento de consciência e escolha. Relembrar que há um “eu” que não está a serviço de nenhuma meta. Que tem direito ao tempo ocioso, à pausa, à conexão gratuita com o outro e consigo mesmo. Relembrar que a casa, o corpo e a mente precisam ser espaços de acolhimento — e não apenas de produtividade.
Trabalhar de casa pode, sim, ser uma experiência de liberdade e equilíbrio. Mas para isso, é preciso cultivar fronteiras simbólicas saudáveis: saber parar, saber estar presente, saber dizer “não” — inclusive para a exigência interna de estar sempre disponível. E, acima de tudo, lembrar que a vida não começa depois do expediente. Ela acontece agora, inclusive enquanto trabalhamos.
Como psicólogo humanista, convido à reflexão:
“Será que estou vivendo… ou apenas entregando?”
“O que me nutre, para além do que produzo?”
“Como posso honrar meu ser, dentro e fora do horário de trabalho?”
Essas perguntas, ainda que simples, podem ser o início de um novo acordo consigo mesmo: um acordo em que a vida não é adiada, mas respeitada em sua inteireza.



